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ORIGEM E RITUALÍSTICA
A origem dos Jogos Olímpicos na Grécia Antiga é freqüentemente associada à celebração do esporte e do culto à beleza estética humana, como se estes fossem seus objetivos principais. Fala-se pouco, porém, na intenção mística e fúnebre de saudar os mortos de cada cidade.
Num período de quatro em quatro anos, cada cidade-estado da Grécia dedicava um dia do ano (a primeira lua cheia do verão do hemisfério Norte) para reverenciar os falecidos nesse quadriênio, e reuniam num campo os pertences dos mortos e abandonavam momentaneamente a cidade, para deixar que os espíritos passeassem entre suas lembranças de vida terrena. Isso após as vestais acenderem uma chama e os rapazes a levarem até o templo do deus-patrono da cidade. Em Corinto, um dos principais portos gregos, situado no istmo que liga a península do Peloponeso ao continente, esses jogos eram chamados de Jogos Ístimicos. Em Delfos, onde havia o famoso Oráculo de Apolo, eram Jogos Píticos. Em Argos eram Jogos Nemeus.
Na cidade de Olímpia (que, diferente do que afirma o senso comum, não fica aos pés do Monte Olimpo) havia um templo de dimensões magníficas, dedicado a Zeus. Como todo deus da Antigüidade Clássica possuía variações, de acordo com o mito, a cultura e as particularidades que cada cidade-estado lhe atribuía, este Zeus era o chamado Zeus Olímpico, e junto a seu templo se realizavam os jogos esportivos idênticos aos das outras cidades. Porém era em Olímpia que os jogos atingiam sua plenitude, em organização e número de participantes, e onde desenvolveram-se como competições regulares e de extrema importância para todos os helênicos – e eram chamados Jogos Olímpicos.
Com regulamentos a princípio simples e mais tarde bem complexos e rígidos, os Jogos Olímpicos se realizaram com praticamente nenhuma interrupção, do século VIII a.C. ao V d.C. (mais de mil anos, portanto), mas com diversas modificações. Tanto que, ao serem proibidos por édito do Imperador Teodósio II, já tinham se desvirtuado em longas orgias e bacanais de pouca conotação esportiva.
Ainda assim, a festa começara como celebração dos mortos, e já atraía gigantescas procissões de gregos de várias cidades-estado. Era algo inevitável, pois, que surgissem algumas rixas ou contendas entre os peregrinos. Para distrair esses brigões e proteger a paz das celebrações religiosas, a “organização do evento” passou a promover competições esportivas simultâneas ao culto. Pouco depois, um pacto de três reis helênicos assinado em Olímpia comprometeu esses países a realizarem torneios periódicos entre seus atletas (aos quais outros reinos foram juntando os seus). Foi a partir dessa iniciativa que os Jogos Olímpicos tornaram-se competições para a paz: primeiro apenas entre homens, mais tarde entre nações.
No entanto, as nações que havia em 1896, quando as Olimpíadas retornaram, eram diferentes demais daquelas da Antigüidade. Eram países imensos, não mais cidades, e tinham complicadas formas de escolher seus líderes, no lugar dos governos simplificados dos gregos. E possuíam identidades nacionais tão diversas quanto os gregos antigos jamais conheceriam.
A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO ESPORTE
O esporte institucionalizado em clubes, ligas e federações é algo que surge somente na Europa na segunda metade do século XIX – muito recente, portanto. Isso já seria uma explicação suficiente para a demora no retorno dessa tradição, porém o fato mais importante reside no interesse suscitado pelo Classicismo por essa época (final do Romantismo europeu), o que fez com que inúmeras escavações fossem realizadas no território da antigos domínios da Grécia – inclusive Olímpia.
O Templo de Zeus e o Estádio na antiga cidade, que haviam sido soterrados, foram descobertos e, seguindo essa novidade, um jovem herdeiro parisiense de uma rede de hotéis, entusiasta do esporte em várias modalidades, resolveu pesquisar a fundo, em bibliotecas e acervos de todo o continente, os antigos regulamentos olímpicos e suas tradições. Seu nome: [Pierre de Frédy]]. Seu título nobiliárquico: Barão de Coubertin.
O RETORNO DOS JOGOS OLÍMPICOS
Retornar com os Jogos Olímpicos seria uma forma de celebrar a paz entre as nações, pensa o Barão, numa época em que seu país acabara de ser humilhado numa guerra-relâmpago com a Alemanha. Assim, ele lança sucessivos apelos, tanto aos governos quanto às entidades esportivas dos países mais poderosos da Europa, para que voltem a realizar essas competições, à semelhança daqueles da Antigüidade. Em 1892, num congresso na Sorbonne, o Barão consegue que alguns países se comprometam a enviar atletas para a primeira competição olímpica da Era Moderna, cujo local ainda seria decidido.
Em 1894 é criado o Comitê Olímpico Internacional (COI), entidade não-governamental que o próprio Barão de Coubertin se encarregaria de liderar, da criação até 1925. Quase ao mesmo tempo, ele consegue o apoio da Família Real da Grécia, principalmente do Príncipe Constantino, para que Atenas seja a cidade a sediar a primeira edição dos novos Jogos (o sistema de rotatividade entre cidades do mundo só foi definido anos depois). Assim, em abril de 1896, começam na capital grega os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, realizados regularmente a cada quadriênio desde então.
OS JOGOS OLÍMPICOS NA ERA MODERNA
Apesar de serem, em teoria, um evento para participação mundial, é inegável que as Olimpíadas possuam um caráter ainda centralizado no hemisfério norte, onde surgiram, e onde se localiza a maior parte dos tais “países desenvolvidos”. Não por acaso, as Olimpíadas são jogos de verão, mas o verão do norte, que vai de junho a setembro, quando os atletas têm calor suficiente para treinar e competir. Deixam de fora, assim, os chamados “esportes de inverno”, que necessitam de neve para sua realização, fundamentalmente. Para abrigar essas modalidades, o COI cria, em 1924, os Jogos Olímpicos de Inverno, disputados sempre no hemisfério norte, anteriormente coincidindo com os quadriênios dos Jogos originais, e mais tarde se alternando, com diferença de dois anos entre cada evento .
Prosseguindo seus projetos de abrir as modalidades olímpicas a todos os esportistas do mundo, o COI cria as Paraolimpíadas em 1952, dedicadas especificamente aos atletas com alguma deficiência física. Excetuando de 1968 a 1984, esses Jogos Paraolímpicos foram realizados nas mesmas cidades dos jogos convencionais.
Curiosamente, nos Jogos da Antigüidade, os países abandonavam todo conflito político-militar quando chegasse a época dos esportes. O próprio caráter internacional da competição teve início quando três reis de cidades-estado gregas assinaram um tratado de paz em Olímpia, prometendo enviar para lá, a cada quatro anos, seus melhores atletas, obrigando-se a trégua caso estivessem em guerra. O século XX fez com que essa tradição fosse invertida: os Jogos é que se interromperam quando as guerras estouravam, e isso ocorreu três vezes até hoje (1916, 1940 e 1944). Essas duas guerras também viram morrer vários atletas, inclusive medalhistas, que acabaram se convertendo em soldados – continuavam disputando por suas bandeiras, mas a derrota nessa outra contenda é sempre inaceitável. A triste ironia faz parecer que os Jogos Olímpicos ainda precisam transcender o status de instituição esportiva e passar a ser efetivamente uma força de coalizão pacífica global – exatamente o desejo que o Barão de Coubertin deixou em seu testamento.